Rota com Malu


A rota está sendo recalculada e nada melhor do que um filme tocante para colaborar nos rearranjos do percurso: Malu, de Pedro Freire, 2024, experimentado na noite de abertura do 19º Festival Aruanda em João Pessoa, brilha na minha mente com rememorações e projeções.

Baseado em acontecimentos vividos, Malu nos conduz até o reencontro e o desatino intergeracional entre mulheres, avó, mãe e filha, que, no tempo do filme vão se conhecendo, encantando e enfrentando as mazelas que o patriarcado e o capitalismo impõem as mulheridades e suas existências.

Malu, interpretada por Yara de Novaes, nos enreda em seus desejos revolucionários que não tem mais conexão com o tempo presente em tela, mas sim com um sentimento de mundo de um momento que não volta mais. No contato com Dona Lili, Joana e Tibira, Malu vai transparecendo suas contradições subjetivas que endurecem seu molejo teatral de outrora.  

Joana, interpretada por Carol Duarte, traz para seu corpo uma dor que enfrenta o paradoxo entre o auto-amor e a complacência pela mãe, que a fere de modo maternal; sofrimento compartilhado entre nós, trilha de cura a ser sempre percorrida e reprogramada. 

Tibira traz para o filme uma cena de Joãozinho da Gomeia - o rei do Candomblé, curta que refabula os passos do babalaô pelo território carioca, exalando a potência dramaturgica de Átila Bee e toda sua luz e sombra na casa sonho ruína, moradia precária e palco fortuito na periferia.

Dona Lili, por Juliana Carneiro da Cunha, depois de seu aniversário de 75 anos no qual comete suas encrencas, se deleita com um trago de baseado e deságua a violência/abuso infantil sofrida/compartilhada pelas irmãs, quando do falecimento precoce de sua mãe.

Ressentimentos são enunciados e resignificados na casa que tem goteira, sujeira e muita bagunça, revelando de cara o sofrimento psiquíco de todas as personagens, mas principalmente de Malu, que insiste em não desejar tratamento algum, ou melhor, qualquer tratamento.

Reconectada com sua verve artística, Malu termina só, em quedas e tropeços, precisando mais uma vez da filha que responde seu chamado e consegue enfim, ser atendida pela mãe.

Malu, meteoro de alegria, se encerra tocando a pele, o coração e a alma nesse momento de agruras infindas do mundo contemporâneo, sem olhar cuidadoso para tantas vidas em sofrer e reinvenção possível de si. 



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